O carinho que empresto na escuta:
O trabalho de escrita acompanha a minha prática de cuidado. Por vezes o encontro com algumas histórias me inspira a escrever pequenos textos. São histórias inventadas que eu empresto aos pacientes como fragmentos de conforto para o coração.
Todo dia essa menina ia até a beira da praia para ver o sol se despedir.
O movimento do astro sumindo no horizonte trazia uma sensação ambígua…
Não conseguia compreender o motivo de sentir fascínio por aquilo que também lhe trazia dor.
No mar, as ondas naquele instante pareciam encenar um novo movimento. Era como se, na dança, o vai e vem das águas, experimentasse segurar o restinho de calor e brilho antes do repousar do dia. A menina poderia jurar que, no encaracolar da rebentação, via as mãos afoitas da mãe d’agua tentando se agarrar ao restinho de luz e fogo.
Os olhos da menina-terra pareciam querer colocar o quente no dentro da boca. Doía não poder ter um pedaço do dia no escuro da noite.
Então todos os dias ela ia até a beira da praia, via o movimento do sol. Flertava com ele em seu namoro de desencontros. Ele ia embora, descendo a linha do horizonte.
O sol não consegue ficar. A menina insiste em permanecer.
Em um dia de chuva a menina não pôde ir ao encontro do amado. Certas águas nos convidam a entrar para dentro. Estava escuro mas ainda era… dia?!
Como lidar com duas coisas que pareciam não caber em um mesmo lugar?
Tudo naquele cenário trazia um incomodo quase que insuportável. A noite no dia. A denuncia de todas as partes avessas que nos compõe.
Os barulhos da chuva se confundiam com as vozes de dentro: “você acreditou demais”, trovejava. - todas as partes de seu corpo pareciam tremer ao som da tempestade. Sons que denunciavam a sua ingenuidade. Ingenuidade da qual sentia vergonha, sabia tê-la forjado em seu desejo encantado de criança. A terra lhe pedia os pés no chão! Acreditar nos despropósitos não era coisa própria de alguém com sua idade. No amor de mulher feita não há espaço para brincadeiras e encantamentos.
As vozes dentro de si se confundiam e embaralhavam, ainda assim, algo lhe dizia que o horizonte a esperava lá fora.
Mas… como ir para a rua em um dia que evidenciava todas as suas vulnerabilidades?
Um dia em que o sol não despontara com novas promessas de amanhã e nostalgia.
A menina-terra se dava conta de sua fragilidade. Parecia asnear pela volta do amado, como se o sol pudesse, novamente, preencher o oco que sabia carregar no dentro da boca.
Novo trovão. Uma nova voz interna pareceu ganhar espaço: “No mar está a linha mais reta da terra” “vá ao encontro do horizonte”.
Em meio ao medo, criar coragem para deixar a casa, em um dia de tempestade, soava improvável.
A inquietação tomava conta de seu corpo e, tentando acalmar a ansiedade, decidiu preencher a parte vazia com a terra contida em um vazo aonde repousava um girassol.
Sentiu que o a cumplicidade com a planta, também murcha pela falta do mestre, lhe autorizava o empréstimo. Pediu licença, agarrou-se a um punhado e com as mãos construiu o caminho que lhe preencheu o oco. Colocou a terra à boca.
Foi como perceber um outro lado de si. Havia muito que não se sentia tão inteira. Era a coragem que faltava. Sólida e maciça, /com todas as partes dentro(será?!)/, pos-se em direção à praia - com a mesma determinação própria à tudo o que “é” sem se pensar.
Diante da linha mais reta da mundo se sentiu sem se pensar. E sentiu que precisava gritar o que agora sabia de si.
Cuspindo a terra da boca, diante dos raios que atingiam o mar revolto, bradou como trovão:
Sou a terra
Sou eu quem me movo.
Quem está em movimento constante
Sou eu
Sou quem deixa o sol para ir me encontrar com a noite
Ser terra a fez saber que na boca cabiam todas as palavras quantas fossem, desde que fossem as suas - congruentes, incongruentes ou nos avessos.
O movimento do sol agora era apenas uma questão de perspectiva para a menina que se soube terra: flutuando e se movendo solta pelo universo.
Alguma coisa tem me deixado acordado durante a noite. Sinto falta de sono, de tempo e de lugar. Sinto falta do sono, do tempo e do lugar. Sinto falta do artigo que transforma as coisas em conhecidas. Mas, nas horas onde o caminho me parece confesso percebo que a procura das coisas está dentro de cada vez. E o tempo é mais pra fora do que a memória. E a lembrança é o ontem que carrego dentro de mim. Eu tenho procurado por ali e por aqui mas ai parece um lugar pra ontem. Ai tudo é muito certo de dúvida. Ai foi quando me percebi esquecendo. Ai: tempo, lugar e circunstância. Ai - que percebi que existe sozinho e não precisa de mim. Quando me percebi esquecendo foi quando me lembrei mais forte. Dentro de cada vez estão as coisas que realmente importam. Dentro de cada vez a procura do tempo. No caminho confesso me perdi. No caminho confesso a procura do que está dentro. Confesso o tempo que parece mais pra fora. Confesso o tempo que já deixou de ser segredo.